domingo, 31 de maio de 2009

A vida, em Castelo Branco, nos anos 50

A minha avó, Maria de Fátima, nasceu em 1937. A sua adolescência foi vivida entre os anos de 1951 e 1961, ano em que casou.
Ouço-a constantemente repetir “no meu tempo não era assim…”.
Um dia, perguntei-lhe o que queria dizer com aquilo e ela explicou que lá em casa eram 9 irmãos e que os pais eram pobres. Os pais tinham muita dificuldade em alimentar tantos filhos, apesar dos mais velhos já trabalharem. Ela, como era das mais novas, tinha que se sujeitar não só à autoridade dos pais, mas também dos irmãos mais velhos, que tinha que respeitar.
Com 9 anos, era ela que, nos domingos, ia fazer as compras à Praça e só podia comprar meio bife (125 gramas), para dividirem por 4. O pequeno-almoço era sempre sopas de pão com café e pouco leite e quando a refeição acabava e arrumavam a cozinha. Em vez de uma jarra com flores, punham, no centro da mesa, o resto do pão com uma faca ao lado, sinal de que, naquela casa, ao contrário de muitas outras, podiam sempre comer uma fatia de pão e não passavam fome. Não exigia mais do que aquilo que lhe davam e existia grande espírito de partilha.
Por ser a mais nova da família, andou na escola até fazer a 4ª classe, o que já era uma vitória, pois normalmente as raparigas ou não iam à escola ou paravam quando fizessem a 3ª classe, como tinha acontecido com as suas irmãs. Depois da escola, foi aprender a bordar, mas, como tinha que pagar para aprender, só lá andou uns meses. Começou a trabalhar ainda não tinha 13 anos, numa alfaiataria. Alinhavava, passava a ferro e entregava os fatos já prontos na casa dos clientes. Com 14 anos teve a oportunidade de ir trabalhar para um cabeleireiro, até casar.
Nos seus tempos livres, arrumava a casa à mãe, limpava e, quando um electricista amigo da família instalou electricidade lá em casa, começou a ouvir telefonia. Pertenceu ainda a uma Associação que se chamava Juventude Católica. Reuniam-se várias raparigas ao fim de semana e organizavam teatros, bailes e reuniões onde falavam das suas vidas. Esta associação também existia para os rapazes, mas rapazes e raparigas nunca se encontravam e tudo o que faziam era separadamente. Outra actividade obrigatória todos os domingos era ir à missa. Os seus passeios eram ao Parque da Cidade e às vezes iam até ao Miradouro, no Castelo.
Quando começou a namorar, ia aos bailes organizados no Centro Artístico Albicastrense, mas sempre acompanhada da sua mãe. De vez em quando, também se juntavam num café, para assistir a alguns programas de televisão que ainda tinha aparecido há pouco tempo.
Depois de ter contado esta história compreendi a frase tantas vezes repetida pela minha avó: “No meu tempo não era assim…”.



























A minha avó, com 13 anos.


Margarida Carvalho

sábado, 30 de maio de 2009

Guerra do Ultramar

“Eram tempos muito difíceis” – disse-me o meu avô. “Tinha 3 filhos pequenos, a avó não trabalhava porque não tinha a quem deixar os filhos pequenos e era difícil para uma mulher trabalhar.”A minha avó disse que antigamente as mulheres estavam mais em casa a tratar dos filhos e do marido. Ela só trabalhou até nascer o segundo filho.Em 1968, com 31 anos, o meu avô foi para França procurar trabalho. Apesar de ter um emprego em Portugal, ganhava-se pouco e precisava de procurar uma melhor vida para a sua família.O meu avô continuou a contar a sua história: “Não tinha passaporte, nem conseguia arranjar e não se podia passar a fronteira sem autorização. Tive que ir a salto.”“Aos saltos?” – perguntei. O meu avô explicou que a salto era atravessar a fronteira pelos campos, onde não existia a possibilidade de serem descobertos pelos polícias.Se fosse descoberto, ia preso. Não havia liberdade e todas as pessoas eram cuidadosamente vigiadas pela polícia.Quando o meu avô chegou a França, sentiu-se um pouco perdido e sozinho, mas uns amigos ajudaram-no a arranjar trabalho e ficou 2 meses em casa deles.























Café, no centro de Paris – O meu avô, ao centro, com os amigos, com quem viveu 2 meses.





A minha avó ficou com os filhos em Portugal, mas, assim que o meu avô arranjou trabalho e casa, ela foi ter com ele, com um passaporte de turista, que só dava para 3 meses. Depois, quando estava lá, é que arranjou outro.Os filhos ficaram ainda alguns meses em Portugal, mas depois também foram ter com os pais e, mais uma vez, a salto. A minha mãe ainda se lembra de terem ido com um casal desconhecido e andarem muito a pé, por terrenos descampados.“Tinha 7 anos e ia cheia de medo, a pensar que nos iam roubar, mas tinha que tomar conta dos meus irmãos mais novos que choravam muito e queria encontrar depressa o meu pai” – disse a minha mãe. “Ainda bem que agora se pode ir para todo o lado.”No fim de 5 anos, por término do contrato do meu avô e por um bom contrato de trabalho em Portugal, regressaram todos. Foi em Julho de 1973. O 25 de Abril ainda não tinha acontecido.




Margarida